quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Hoje eu fui buscar descanso nos braços de Manoel de Barros, ou melhor, na leveza de suas palavras. Fui buscar refúgio junto ao poeta dos passarinhos, do cheiro de terra molhada, do musgo nas pedras do rio, dos bichinhos do quintal que sobem na parede... 
                                                          

                                                              Achadouros

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. Hoje encontrei um baú cheio de punhetas.

 Publicado em: Memórias inventadas - As infâncias de Manoel de Barros

sábado, 5 de março de 2011


Ao avesso

Amar ao avesso é odiar sentir o peito arder quando está tomado
pelo cheiro,
que sempre é sentido ao fechar os olhos,
pela voz,
que o ouvido se recusa a esquecer.
É odiar a falta que sente do outro e é, também,
Odiar os cavalos cavalgando no coração ao escutar

O doce nome que se quer esquecer.

Lauriane Baldez.

Hoje
O dia hoje resolveu
que seria a lembrança triste
de uma cantiga de roda
embalada pelo som do vento.

Lauriane Baldez

Pela Manhã

Pela manhã o medo não nos incomoda.

Há apenas a sensação da imortalidade.

É Ícaro voando sem medo do sol,

Sentindo o vento no rosto, a brisa do mar...

Quando a tarde chega, descobrimos que, ao cairmos,

Somos seres mortais.

É Ícaro sentindo o sol desfazer suas asas.

A noite traz com ela a desesperança

Que todo sonhador tem medo.

É Ícaro, em queda livre, sentido medo de pertencer ao mar.


Lauriane Baldez.